29 de julho de 2014

Shenzhen


Localizada no sul da China, ao norte de Hong Kong 

População     
1978: 30 mil 
1984: 350 mil
2005: 12 milhões

A julgar pelos números, o assunto poderia ser "experimento com coelhos", mas trata-se de mais uma façanha humana que resulta da combinação de cidade e indústria: a boa e velha migração. Talvez nem tão boa assim, mas certamente velha.

Em 1980, Shenzhen era uma vila de pescadores quando foi escolhida para sediar a primeira Zona Econômica Especial da China, numa das muitas reformas promovidas pelo líder político Deng Xiaoping. Isso significou incentivos à exportação, atração de capitais estrangeiros e investimentos em infraestrutura. Adicione o ingrediente "excedente de mão-de-obra barata", leve ao forno por 25 anos e está pronta a explosão demográfica.

Sim, pessoas de todos os cantos da China foram para Shenzhen. Espere....todos? Hum, não é bem assim. Em 1949, logo após a Revolução Comunista, foi instituído na China um registro de residência, o sistema hukou.


"Neste sistema, cada cidadão tem um registro de residência, que é vinculado à determinada vila, cidade ou comuna agrícola. Juntamente com este controle geográfico, aparecem outros, como as fichas na polícia ou a designação de emprego no Ministério do Trabalho. [...] Cada cidade emite o seu próprio hukou, o qual concede aos seus residentes vantagens particulares associadas com as políticas públicas do local."

Extraído de: 
A mobilidade do trabalho na China - O sistema de registro hukou 
Revista Pesquisa & Debate (PUC/SP), volume 20, número 2 (36) pp. 233-257, 2009.


Esse sistema sofreu várias alterações e foi sendo flexibilizado ao longo dos anos, mas ainda existe até hoje. Na prática o hukou divide os chineses em 2 grupos: rurais e urbanos. Até os anos 1970, cidadãos com hukou rural eram impedidos de migrar para áreas urbanas, e um camponês chegava a ser preso se pusesse os pés numa cidade. Imagine isso!

Atualmente, existe alguma mobilidade, mas permanece o problema de acesso dos chineses aos serviços públicos: um cidadão com hukou urbano pode migrar para outra cidade para lá viver e trabalhar, mas ele somente tem direito a serviços fornecidos pelo Estado na sua cidade de origem. Se ele ficar doente e não puder pagar suas despesas médicas, a saída é voltar à sua cidade natal ou acender uma vela e torcer pra tudo dar certo.

E o que me inspirou a fazer esta breve pesquisa? A leitura de uma incrível graphic novel (história em quadrinhos em formato de livro e "fechada" - com começo, meio e fim).

Em Shenzhen, o cartunista e animador canadense Guy Delisle reconta um período de sua vida quando, em 1997-98, passou 3 meses naquela cidade a serviço de um estúdio de animação francês (que  terceirizava boa parte do trabalho para a China).

O autor desenha o cotidiano dele durante sua estada em Shenzhen e descreve as inúmeras situações curiosas, engraçadas e trágicas pelas quais passou. Num dos trechos ele faz uma comparação entre a visão de Dante sobre o Inferno e o que (para ele) seria essa visão segundo os chineses. 
































Imagino que as cercas elétricas a que ele faz referência são parte do aparato que o Estado chinês utiliza para separar os 2 tipos de cidadão (hukou urbano e rural), afinal não são todos que têm permissão para adentrar na cidade e lá residir e trabalhar. Postos de controle "fronteiriço" desse tipo existem também entre Shenzhen e Hong Kong.

Em outro trecho ele descreve um jantar que deixaria a maioria dos ocidentais de cabelo em pé: cachorro! E como acompanhamento: incêndio na mesa ao lado!!
































Shenzhen acaba sendo uma leitura muito divertida. A arte é sensacional, toda em preto e branco, e a HQ funciona como uma viagem à China ao transmitir várias referências dessa cultura que a maioria de nós conhece tão pouco. 

Título: Shenzhen
Autor: Guy Delisle
Editora: Zarabatana
Páginas: 160
Ano: 2009 
Preço: R$ 36