30 de agosto de 2014

A Disney e a 2ª Guerra Mundial


A entrada dos Estados Unidos na 2ª Guerra Mundial deu-se logo após o ataque japonês à base naval de Pearl Harbor, em dezembro de 1941. Até então o país adotara uma postura neutra e de distanciamento em relação ao conflito que, até aquele momento, era marcadamente “europeu”.

Entre 1942 e 1945, 16 milhões de homens e mulheres serviram nas forças armadas norte-americanas. O gasto com as operações de guerra no período consumiu 36% do PIB (Produto Interno Bruto) do país, totalizando US$ 296 bilhões na época, ou US$ 4,1 trilhões em valores atuais. (fonte: Congressional Research Office, 2010)


Esse considerável esforço de guerra teve a participação de estúdios como Warner, Fox e Disney. Essa parceria era fundamental, pois no início dos anos 1940 quase ninguém tinha TV em casa. Por outro lado, nos finais de semana, 90 dos 120 milhões de norte-americanos iam aos cinemas! A comunicação de massa abrangia também o jornal e o rádio, e juntos, essas três mídias se mostraram muito úteis para que o governo tivesse a cooperação de seus cidadãos em tempos de guerra.

A ideia de usar animação como “arma de guerra” do governo teria partido de um cineasta: Frank Capra. O uso de atores nos comerciais não parecia boa ideia, pois seria visto pelos soldados como uma representação falsa. Por outro lado, escalar soldados reais como "garotos-propaganda" era ainda pior, dada a incapacidade destes em se comunicar bem. A saída foi usar animação e personagens conhecidos do público, e foi nesse campo de batalha que a Disney teve uma grande contribuição: entre 1942 e 1945 o estúdio produziu 68 horas de animação de guerra.



Walt Disney nasceu em 1901, e aos 16 anos tentou se alistar para lutar na 1ª Guerra Mundial. Seu pedido foi rejeitado por causa da sua idade, mas em 1918, com a guerra já terminada, ele dirigiu ambulâncias a serviço da Cruz Vermelha na França. Seu entusiasmo para engajar-se em causas importantes para o seu país não arrefeceu quando da entrada dos Estados Unidos na 2ª Guerra. 

A partir de 1942, centenas de homens e mulheres do Exército, Aeronáutica e Marinha passaram a residir em alojamentos nos estúdios Disney. Junto com os animadores, essas equipes criaram mais de 1.200 insígnias para divisões das Forças Armadas.


Para os cinemas, os animadores da Disney produziram vários curtas metragens que usavam de fantasia e humor para abordar a realidade da época: se por um lado não havia conflito em solo americano e o povo estava relativamente seguro; por outro, a população enfrentava escassez de alguns produtos, como café e carne, e tinha de pagar maiores impostos para financiar o esforço de guerra. 

Nas animações, temas como esforço, sacrifício pessoal, escassez, união nacional e vitória eram recorrentes. Vale lembrar que na época adultos e crianças eram o público-alvo das animações da Disney (e não apenas crianças), então a ideia dos produtores era fazer com que as pessoas saíssem do cinema um pouco mais felizes, mesmo vivendo em tempos tão difíceis, pois elas sabiam que o sucesso dos Estados Unidos (e dos Aliados) no esforço de guerra dependia da colaboração de todos.

Hoje em dia as animações de guerra da Disney encontram-se banidas pela empresa. São parte de um passado de ridicularização e demonização dos atuais aliados dos Estados Unidos (Alemanha, Itália e Japão). Por serem conteúdos considerados politicamente incorretos, chegam a integrar DVD’s especiais mas não são transmitidos pela TV. Se você viu alguma dessas animações, é muito provável que tenha sido através da internet. 

Abaixo, compilo algumas dessas animações. 

A face do fuhrer (1943, 8 min.)
Der Fuehrer's Face
O curta aborda um dia na vida do Pato Donald, que trabalha numa fábrica de armamentos do fuhrer. A trilha sonora virou sucesso na época e a animação ganhou o Oscar de curta metragem em 1943.




As crianças de Hitler – Educação para a morte (1943, 10 min.)
Hitler's Children - Education for Death
O curta narra o processo de educação nazista de Hans, um menino alemão. Numa das cenas, a bela adormecida é retratada como a Alemanha, que é resgatada da bruxa (democracia) por ninguém menos que Adolf Hitler (o “príncipe”).




O espírito de 43 (1943, 6 min.)
The Spirit of ‘43
Neste curta o Pato Donald é aconselhado pelo Tio Patinhas a guardar uma parte do seu salário para pagar seus impostos, que estão maiores este ano devido à guerra.




O novo espírito (1942, 7 min.)
The new spirit
O Pato Donald é incentivado por uma propaganda de rádio a recolher seu imposto de renda o quanto antes, para que os Aliados derrotem o Eixo.




Saindo da frigideira para a linha de tiro (1942, 3 min.)
Out of the Frying Pan into the Firing Line
Minnie e Pluto são incentivados por uma propaganda de rádio a armazenar gordura de cozinha, útil para a produção de explosivos. 



19 de agosto de 2014

A caverna dos sonhos esquecidos

Sul da França - Vale do Rio Ardèche, 18 de dezembro de 1994

Dias antes do Natal, três exploradores encontraram uma caverna. Sua entrada era tão estreita que um homem mal conseguia atravessar. Esta poderia ser uma descoberta qualquer, mas a caverna tinha em seu interior pinturas feitas há 32 mil anos, o dobro da "idade" da arte rupestre mais antiga conhecida pelo homem, até então.

Há 20 mil anos, um desabamento de rochas fechou a entrada da caverna, que permaneceu intacta até sua descoberta em 1994. Por ter sido preservada como uma "cápsula do tempo", seu conteúdo encontra-se em excelente estado de conservação. Além de pinturas de animais e partes do corpo humano, a caverna abriga ossos de animais já extintos.


A caverna Chauvet foi batizada em homenagem a um dos exploradores responsáveis pela sua descoberta. Ela também é chamada de Chauvet-Pont-D'Arc, pois está localizada a 400 metros de distância de uma ponte natural (em formato de arco) sobre o rio Ardèche.

Logo após sua descoberta, o governo francês ordenou o fechamento da caverna. Desde então, seu acesso é restrito a poucos pesquisadores que, ao longo dos últimos 20 anos, têm estudado a caverna e seus tesouros. 


Em 2010, o cineasta alemão Werner Herzog obteve autorização especial do governo para filmar o local. O resultado é o premiado documentário A caverna dos sonhos esquecidos, que faz um reflexão sobre os nossos ancestrais que viveram naquela região, seu modo de vida e suas ideias e sonhos, expressos na caverna através de pinturas.

Abaixo, você assiste ao trailer do documentário. Para ver na íntegra é preciso baixar o arquivo pela internet.



8 de agosto de 2014

O poder dos pesadelos

"No passado, os políticos prometeram criar um mundo melhor. Eles tinham diferentes meios de buscar isso, mas seu poder e autoridade vinham das visões otimistas que eles ofereciam ao povo. Esses sonhos falharam e hoje as pessoas perderam a fé nas ideologias. Cada vez mais, políticos são vistos simplesmente como administradores da vida pública. Mas agora eles descobriram uma nova função, que lhes devolve o poder e a autoridade. Ao invés de prometer-nos sonhos, os políticos agora prometem proteger-nos de pesadelos. Eles dizem que vão nos salvar de terríveis perigos que não podemos ver nem entender. E o maior perigo de todos é o terrorismo internacional, uma poderosa e sinistra rede com células adormecidas em países ao redor do mundo, uma ameaça que precisa ser combatida através de uma 'guerra ao terror'. Mas muito dessa ameaça é uma fantasia, que tem sido exagerada e distorcida por políticos. É uma ilusão sombria que é divulgada sem questionamentos por governos, agências de segurança e pela mídia internacional."

O trecho acima é uma tradução livre da introdução ao documentário O Poder dos Pesadelos (The Power of Nightmares, 2004). Produzido para a BBC e dividido em 3 partes, o documentário conta a história de dois grupos que contribuíram para a “ascensão das políticas do medo” nas últimas décadas: os neoconservadores americanos e os islamitas radicais.

Antes dos atentados de 11 de setembro nos Estados Unidos, a mídia, o público em geral e várias autoridades jamais tinham ouvido falar na Al Qaeda. Poucos anos depois, os atentados de Madri (2004) e Londres (2005) foram atribuídos ao grupo, e desde então, governos e meios de comunicação alertam para seu envolvimento em inúmeras atividades ao redor do mundo.

Mas por que ninguém ouviu falar neles antes? O governo norte-americano somente constatou a existência da Al Qaeda em 2001, quando um ex-aliado de Osama Bin Laden prestou depoimentos nas cortes de justiça dos Estados Unidos e contou sua história. E isso teria acontecido meses antes do ataque às Torres Gêmeas.

Um dos méritos do documentário é relativizar o terrorismo enquanto ameaça à civilização. Em 2012, 8.480 ataques terroristas mataram cerca de 15.500 pessoas no mundo (GTB – Global Terrorism Database). No mesmo ano, segundo estimativa do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, 437 mil pessoas foram assassinadas. E à medida em que deixamos de lado essas estatísticas de mortes, e passamos a outros problemas sociais os números aumentam exponencialmente: 122 milhões de jovens entre 15 e 24 anos são analfabetos, e 783 milhões de pessoas não tem acesso à água potável (ONU, Relatório sobre as Metas do Milênio – 2012).

A ameaça do terrorismo parece muito maior na imaginação do que na realidade. Um dos seus perigos é justamente o uso contínuo e desmedido da palavra. Interpretações distorcidas têm levado governos a aprovar leis anti-terror que cerceiam a liberdade dos cidadãos. Ações violentas ou até mesmo não violentas podem, em determinado contexto, serem considerados atos de terrorismo. E não precisa ir longe para encontrar um exemplo: após os protestos de junho de 2013 no Brasil, o Senado chegou a colocar em pauta um projeto de lei que considerava terrorismo a realização de protestos durante a Copa do Mundo. Previa-se penas de até 30 anos de prisão para os envolvidos! Algumas discussões foram feitas mas o projeto acabou saindo de pauta.

Abaixo, disponibilizo a primeira parte do documentário e os links para as partes 2 e 3.



Parte 2 - A vitória imaginária

Parte 3 - As sombras na caverna

4 de agosto de 2014

As prisões privadas

Ribeirão das Neves tem 300 mil habitantes e fica a 23 km de Belo Horizonte. Em janeiro de 2013, começou a funcionar no município o primeiro presídio privado do país, fruto de uma parceria público-privada (PPP) firmada entre o Governo do Estado de Minas Gerais e o consórcio GPA - Gestores Prisionais Associados. O contrato prevê a concessão, por um período de 27 anos (prorrogáveis por mais 35), de um complexo prisional formado por 5 unidades, capazes de abrigar 608 presos cada uma.

Atualmente, o custo de manutenção de um preso numa penitenciária pública gira em torno de R$ 1,3 a R$ 1,7 mil por mês. Na PPP de Ribeirão das Neves, o consórcio GPA vai receber do governo estadual R$ 2,7 mil por mês, para cada preso. Este projeto, que por enquanto é observado como um piloto, tem recebido atenção de autoridades, acadêmicos e entidades do terceiro setor. Inclusive, os governos de São Paulo, Rio Grande do Sul, Pernambuco e Distrito Federal já estudam a implantação de PPPs nos mesmos moldes. 

A administração prisional era, até então, uma atribuição executada diretamente pelo Estado, embora este terceirizasse alguns serviços das unidades (Ex. alimentação). O problema então passa a ser: quais as vantagens e desvantagens de uma privatização nessa área?

Essa é uma questão abordada pela Pública, Agência de Reportagem e Jornalismo Investigativo. A matéria sobre o assunto pode ser conferida aqui: Quanto mais presos, maior o lucro.

Eles fizeram também um documentário sobre a penitenciária de Ribeirão das Neves. É bem curto (15 min.) e vale a pena assistir.



29 de julho de 2014

Shenzhen

Localizada no sul da China, ao norte de Hong Kong 

População     
1978: 30 mil 
1984: 350 mil
2005: 12 milhões

A julgar pelos números, o assunto poderia ser "experimento com coelhos", mas trata-se de mais uma façanha humana que resulta da combinação de cidade e indústria: a boa e velha migração. Talvez nem tão boa assim, mas certamente velha.

Em 1980, Shenzhen era uma vila de pescadores quando foi escolhida para sediar a primeira Zona Econômica Especial da China, numa das muitas reformas promovidas pelo líder político Deng Xiaoping. Isso significou incentivos à exportação, atração de capitais estrangeiros e investimentos em infraestrutura. Adicione o ingrediente "excedente de mão-de-obra barata", leve ao forno por 25 anos e está pronta a explosão demográfica.

Sim, pessoas de todos os cantos da China foram para Shenzhen. Espere....todos? Hum, não é bem assim. Em 1949, logo após a Revolução Comunista, foi instituído na China um registro de residência, o sistema hukou.


"Neste sistema, cada cidadão tem um registro de residência, que é vinculado à determinada vila, cidade ou comuna agrícola. Juntamente com este controle geográfico, aparecem outros, como as fichas na polícia ou a designação de emprego no Ministério do Trabalho. [...] Cada cidade emite o seu próprio hukou, o qual concede aos seus residentes vantagens particulares associadas com as políticas públicas do local."

Extraído de: 
A mobilidade do trabalho na China - O sistema de registro hukou 
Revista Pesquisa & Debate (PUC/SP), volume 20, número 2 (36) pp. 233-257, 2009.


Esse sistema sofreu várias alterações e foi sendo flexibilizado ao longo dos anos, mas ainda existe até hoje. Na prática o hukou divide os chineses em 2 grupos: rurais e urbanos. Até os anos 1970, cidadãos com hukou rural eram impedidos de migrar para áreas urbanas, e um camponês chegava a ser preso se pusesse os pés numa cidade. Imagine isso!

Atualmente, existe alguma mobilidade, mas permanece o problema de acesso dos chineses aos serviços públicos: um cidadão com hukou urbano pode migrar para outra cidade para lá viver e trabalhar, mas ele somente tem direito a serviços fornecidos pelo Estado na sua cidade de origem. Se ele ficar doente e não puder pagar suas despesas médicas, a saída é voltar à sua cidade natal ou acender uma vela e torcer pra tudo dar certo.

E o que me inspirou a fazer esta breve pesquisa? A leitura de uma incrível graphic novel (história em quadrinhos em formato de livro e "fechada" - com começo, meio e fim).

Em Shenzhen, o cartunista e animador canadense Guy Delisle reconta um período de sua vida quando, em 1997-98, passou 3 meses naquela cidade a serviço de um estúdio de animação francês (que  terceirizava boa parte do trabalho para a China).

O autor desenha o cotidiano dele durante sua estada em Shenzhen e descreve as inúmeras situações curiosas, engraçadas e trágicas pelas quais passou. Num dos trechos ele faz uma comparação entre a visão de Dante sobre o Inferno e o que (para ele) seria essa visão segundo os chineses. 
































Imagino que as cercas elétricas a que ele faz referência são parte do aparato que o Estado chinês utiliza para separar os 2 tipos de cidadão (hukou urbano e rural), afinal não são todos que têm permissão para adentrar na cidade e lá residir e trabalhar. Postos de controle "fronteiriço" desse tipo existem também entre Shenzhen e Hong Kong.

Em outro trecho ele descreve um jantar que deixaria a maioria dos ocidentais de cabelo em pé: cachorro! E como acompanhamento: incêndio na mesa ao lado!!
































Shenzhen acaba sendo uma leitura muito divertida. A arte é sensacional, toda em preto e branco, e a HQ funciona como uma viagem à China ao transmitir várias referências dessa cultura que a maioria de nós conhece tão pouco. 

Título: Shenzhen
Autor: Guy Delisle
Editora: Zarabatana
Páginas: 160
Ano: 2009